Professora Laura Brandão: do sonho da criação de um grupo de dança a mobilizadora por excelência

“Ouvir as pessoas dizer que somos a alegria delas é um incentivo a continuar ano após ano”

Em vésperas dos festejos de Carnaval, o Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo desafiou a professora Laura Brandão a fazer uma reflexão sobre o passado e o presente destas comemorações no Concelho, bem como a falar sobre os sonhos que foi realizando, a integração na Associação Desportiva da Vila e de como se tornou uma verdadeira mobilizadora de gentes e vontades.

Professora do 1º ciclo, Laura Brandão nasceu a 3 de setembro de 1966 e, desde cedo, herdou dos pais a vocação pelo ensino e a vontade de ser ativa junto da comunidade. Os progenitores também eram professores e o pai, Orlando Augusto Borges Brandão, chegou inclusive a ser presidente da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo e tinha papel ativo junto da comunidade, por exemplo, ajudava no Externato e corrigia a página do jornal A Crença. Por sua vez, a mãe, Donatilde Nicolau Furtado Lima, tinha por hábito ajudar nas marchas de São João e participava no folclore.

Laura Brandão conta que as pessoas lhe dizem ser parecida com a mãe, com quem aprendeu a gostar de danças e também “por causa dos números que se faziam quando estava no jardim de infância, na altura no Convento das Freiras”.

O gosto pela dança, pela animação cultural, continuou a crescer, nos anos seguintes, com os desfiles e brincadeiras de Carnaval impulsionados pelo professor José Cabral. Na infância de Laura Brandão, Vila Franca do Campo era palco de batalhas de limas e havia o hábito de mergulhar no Corpo Santo nesta altura, desafiando as baixas temperaturas que se sentiam no mar.

“Os jovens daquela altura mascaravam-se ao Domingo, havia também bailes e desfiles do Externato, também dinamizados pelo professor José Cabral”, recorda, acrescentando que se faziam malassadas com algodão no interior para pregar partidas.

 

O sonho realizado: criar um grupo de dança

Laura Brandão cresceu e com ela um sonho: criar um grupo de dança, objetivo para o qual o professor Carlos Martins, na altura enquanto aluna no liceu Antero de Quental, a motivou. “Isto ficou-me na memória, foi um incentivo”, lembra.

Em 1988, tira o curso do Magistério Primário e lecionou durante alguns anos a disciplina de Educação Física.

Entretanto, passados alguns anos, começou depois a fazer “algumas brincadeiras” com as crianças no Concelho, “atuávamos no São João da Vila, nas verbenas, as pessoas achavam muita graça e cada vez vinham mais crianças, começamos também a atuar nas festas, nos impérios do Divino Espírito Santo e as atividades foram crescendo”, explica a professora.

O primeiro grupo de dança surge na Ribeira das Taínhas, onde dava aulas, com grande incentivo do jornalista vila-franquense Santos Narciso. “Os pais das crianças gostavam muito, eram muito carinhosos e começamos a fazer muitas atividades nos arraiais da Ribeira das Taínhas”, diz a professora.

O crescimento do grupo levou a que se tornasse necessário, em termos legais, integrar as atividades numa associação. A Associação Desportiva da Vila fez o convite e Laura Brandão acabou por integrar a ADV com o grupo de dança, no ano 2000.

O grupo chegou a ter cerca de 70 jovens a ensaiar todas as semanas. Na altura, não havia muitas atividades de ocupação de tempos livres no Concelho e, também por isso, Laura Brandão conseguia juntar muitos jovens. “Chegávamos a fazer mais de 20 espetáculos por ano e também íamos para fora do concelho para os arraiais populares”, contudo, depois “surgiram outras atividades como o futebol, os escuteiros, ballet, música e os próprios jovens foram crescendo”, explica.

O sonho de criar o grupo de dança concretizou-se, mas, ao mesmo tempo, as responsabilidades profissionais foram aumentando. A Direção Regional da Educação Física e Desporto convidou a professora para coordenadora de Educação Física. “Fui-o durante 5 anos e fizemos, com a Câmara Municipal, a primeira Semana da Educação Física, juntando mais de mil alunos no Campo de Jogos”, recorda.

 

O preencher de um vazio na animação pelo Carnaval

Passados cinco anos, as saudades que sentia fizeram Laura Brandão voltar ao ensino, desta feita em Água d’Alto.  Ao mesmo tempo, sentiu que surgiu “um vazio, as coisas pararam um bocado”.

“Como ninguém fazia nada para animar o Carnaval e o grupo de dança tinha muita roupa dos espetáculos que ia fazendo e que nos era doada, em 2009, lembrei-me de juntar as pessoas, unir-nos à Autarquia e à Santa Casa e sairmos a desfilar no Carnaval, com a possibilidade de emprestar os disfarces a quem não tinha”.

A ideia foi bem recebida e a ADV desfila pela primeira vez no Carnaval com o Circo como tema. A organização dos festejos de Carnaval “dava muito trabalho” e com a entrada na Câmara Municipal do Dr. Ricardo Rodrigues, a partir de 2014, a Autarquia ficou à frente da organização dos desfiles de domingo e terça-feira, cabendo às escolas o desfile de sexta-feira, sendo que  Laura Brandão continuou a colaborar e a participar com o grupo de dança.

“Penso que agora a terça-feira de Entrudo está forte, está a crescer em termos de atração de público e qualidade da animação em Vila Franca do Campo”, frisa.

 

O carinho das pessoas como incentivo para continuar

Contudo, a professora sente que é cada vez mais difícil encontrar crianças que queiram participar. “Há muitas atividades e as tecnologias vieram dificultar a mobilização das crianças, passam muitas horas à frente de um ecrã de um telemóvel, de um tablet ou de um computador”, lamenta.

Como é difícil mobilizar em grandes quantidades, “em vez de fazer os espetáculos, que dão muito trabalho e exigem grande assiduidade dos jovens, adaptamos as atividades para cortejos”, explica a professora, acrescentando que “é mais fácil, também já tenho outra idade e, assim, divirto-me na mesma”.

Agora, com fragilidades ao nível da saúde, Laura Brandão diz que está na altura de os jovens se “chegarem à frente” e diz-se contente “porque estão a organizar-se”.

Atualmente, nos cortejos tenta mobilizar também jovens de outros concelhos, sendo que o núcleo duro da ADV conta com cerca de 20 jovens.

Concretizada, mas sempre a tentar melhorar, Laura Brandão continua a participar nos momentos de animação cultural que “servem de força, pois, tirando o trabalho do dia-a-dia, estas festas trazem alegria”.

“Uma das coisas mais bonitas que já me disseram foi: vocês são a nossa alegria”, realça.

“As pessoas perguntam-me onde estão as meninas da ADV, a música e referem que, connosco, Vila Franca fica alegre e isso incentiva-me a continuar anos após ano”, reitera a professora.

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By | 2018-02-07T10:52:34+00:00 Fevereiro 9th, 2018|Cultura|0 Comments